Notícias

8M

A luta pela permanência de mulheres negras nas Instituições Federais de Ensino

Data de Publicação: 21/03/2025

Raquel Mendes, assistente social e pesquisadora, investiga as barreiras à permanência de estudantes negros nos IFs, destacando a necessidade de políticas públicas estruturadas e maior representatividade

 

A universidade nunca foi um espaço neutro. Para estudantes negros, sobretudo mulheres negras, a permanência no ensino superior sempre foi uma batalha travada contra a estrutura excludente da academia. Raquel Mendes conhece bem essa realidade. Assistente social, TAE da UFS, militante e pesquisadora, ela tem dedicado sua trajetória acadêmica e profissional a compreender e enfrentar as barreiras que afastam estudantes negros da universidade. 

Doutoranda pela Universidade Federal do ABC (UFABC), no programa de Políticas Públicas, e atualmente realizando doutorado sanduíche em Portugal, Raquel tem aprofundado essa temática desde o mestrado, pesquisando as políticas de permanência estudantil e seus desafios estruturais.

"A permanência estudantil não pode ser tratada como um favor ou um programa secundário, mas como um direito social inegociável", afirma. Seu trabalho na assistência estudantil mostrou que, sem uma política efetiva, o ensino público reproduz desigualdades, transformando o ingresso via cotas em uma ilusão passageira. Para ela, a luta sindical e a defesa de direitos caminham lado a lado com o combate às desigualdades estruturais do capitalismo.

A experiência direta no atendimento a estudantes revelou um entrave profundo: a permanência é tratada de forma fragmentada nas universidades e institutos federais. "Sem gestores comprometidos e preparados, a política de permanência se esvazia e vira assistencialismo desconectado da realidade dos estudantes", critica. A falta de compreensão técnica sobre essa política dificulta o diálogo e compromete a efetividade das ações, tornando a vida acadêmica ainda mais desafiadora para estudantes negros/as.

A ampliação do acesso com a Lei de Cotas expôs uma contradição: enquanto mais alunos/as negros/as ingressavam nas universidades, as estruturas de permanência não acompanharam essa expansão. Nos Institutos Federais, essa defasagem é ainda mais acentuada. "Os IFs precisam de um status mais robusto para a assistência estudantil, como uma pró-reitoria, garantindo orçamento e estrutura para acolher os estudantes", pontua. O descompasso entre gestão e técnicos especializados aprofunda a precarização das políticas voltadas para cotistas.

Outro obstáculo grave é a invisibilidade estatística dos/as discentes negros/as cotistas. Relatórios institucionais não detalham informações interseccionais, dificultando a formulação de políticas eficazes. "Sem dados concretos, a gente nem consegue provar o que já sabemos na prática: a evasão tem cor, tem gênero, tem classe", afirma. 

A ausência de recortes específicos também impacta as estudantes negras mães, um grupo duplamente invisibilizado. Para enfrentar essa lacuna, Raquel coordena um projeto de pesquisa no campus Itabaiana da UFS, buscando traçar um perfil mais detalhado dos/as estudantes e denunciar a negligência administrativa na produção de dados.

Mulheres negras na academia enfrentam um percurso ainda mais árduo, atravessadas pelo racismo estrutural e pelo machismo institucionalizado. Essa opressão se agrava quando se somam fatores como maternidade e identidade LGBTQIAPN+. "A universidade foi desenhada para um outro perfil de estudante, não para nós. Sem políticas específicas, a evasão vai continuar alta e a saúde mental dessas mulheres seguirá sendo comprometida", a Raquel. Para reverter esse cenário, ela defende uma reestruturação das políticas institucionais, garantindo escuta ativa e participação de estudantes, técnicos/as e movimentos sociais.

A democratização da universidade também passa pela ocupação de espaços decisórios por mulheres negras e grupos minorizados. Sem essa representatividade, as políticas seguem sendo formuladas de forma limitada, distantes das reais necessidades da comunidade acadêmica. "A mudança precisa vir de dentro, com vozes que realmente conhecem essas dores", reforça.

Raquel Mendes também enfrenta outro desafio comum aos TAEs: a dificuldade de conciliar sua atuação profissional com a qualificação acadêmica. Ela vivenciou na prática e conhece alguns dos entraves institucionais impostos à capacitação da categoria. A liberação de servidores/as para estudos, que muitas vezes é tratada como concessão e não como um direito, reflete a lógica elitista que permeia o ensino superior. O incentivo é mínimo, os obstáculos burocráticos são inúmeros e, em diversos casos, o que define se alguém terá ou não apoio para se qualificar é a proximidade com gestores e setores de poder dentro da instituição. 

A hierarquização das relações acadêmicas favorece alguns poucos, enquanto a maioria dos/as técnicos/as que buscam aprimoramento se depara com resistência e falta de suporte. "A pesquisa não pode ser um privilégio restrito. Precisamos romper com essa lógica e garantir que todos os/as trabalhadores/as tenham o direito de avançar em suas formações", defende.

Trajetórias de resistência

Para as jovens mulheres negras que ingressam no ensino superior e sonham em seguir na academia, ela tem um recado direto: "Desistir não é opção". A estrutura social já está desenhada para negar espaço a essas mulheres, mas é justamente por isso que a resistência se faz necessária. 

Inspirada pelo conceito de "escrevivência" de Conceição Evaristo, a assistente social defende que a luta precisa ser insubmissa, subversiva e coletiva. O desafio de permanecer na universidade não é individual, mas um projeto político de transformação social.

A trajetória de Raquel Mendes evidencia que a academia pode ser um território de resistência, desde que haja compromisso e ação coletiva para garantir que o acesso se converta em permanência e equidade real dentro das instituições de ensino.